segunda-feira, 11 de abril de 2011

Cartas

                                                                                                                                                     desabafo                                                                

não é só acolhimento e identificação
sua presença é um universo extendido de referências que me convida a ser livre pra expressar o que eu quero na música, você acolhe uma diversidade imensa
teorias sobre teorias ou sobre as práticas, você passeou por várias áreas pra entender como elas são todas uma só e estão na vida, conosco, antes de começar a falar

não tenho rótulos pra me contorcer, ler um pedaço de um livro, perguntar, chorar, pedir, inventar um processo material esquisito, trocar a ordem ou mudar o lugar das coisas
posso fazer qualquer coisa, meu corpo é livre, minha risada é livre, minha mente está livre

puta que pariu passar a noite falando de confrontos teóricos com uma tensão crônica pelas motivações escondidas, sempre com a paz distante, o corpo emocional bloqueado

ou seguir os rituais desgastados e feios de ficar se beijando e se tocando sem atenção pra tentar acessar o fragmento "contato humano"

o entorpecimento da irresponsabilidade em julgar, depreciar, achar que está errado, errado, com o mesmo desrespeito achar que está certo, e por isso é tudo pior ou melhor que si mesmo sempre
ou mesmo a imagem autoritária da elevação, ok, estamos aí querendo mais integração e contato mas continuamos todos com mil caminhos existenciais ante os poluentes, e a vida, as discussões, as atitudes não se resumem a isso, mas passam por isso pra chegar muito mais além

sustentar padrões de gestos de carinho e amor com o rosto e corpo pra se identificar num lifestyle hippie superficial que não enxerga as sombras e por isso acessa um mínimo de luz - meus olhos andam clínicos pra esses falseamentos

essa rejeição comum e corrente pelo real underground nas artes, ficar endeusando as quebras num processo de insegurança e vaidade explícito, a masturbação jazzistica infinita que reduz a harmonica à falta de significado, poesias com esquemas linguisticos refinados nas formas, ou desencaixes ironicos e assuntos mortos

ficam todos esses modelos de ter que ser, melhor que seja, dever ser, podres por dentro, praticamente inexistentes não fosse o esforço abissal de manter correntes de artifícios em badulaques manifestos criando a identidade e a sanidade pelo medo - identidade e sanidade pelo medo
essa dificuldade defendida de ver beleza na simplicidade da música que é carregada de força e emoção e todo processo de estancamento, engessamento, limitação e pouca força ou desequilibrio que essas convivências me trazem

me dão saudade
de investir e ressoar com a existência permeando as coisas
convencidos que a gigantesca diversidade de artifícios que o medo de ser cria
não conduzem caminhos reais pras coisas,
então a distância entre existir e manifestar fica cada vez mais aparente em todo o resto,
e eu tentando buscar os olhos alheios
que se alcançados mostram confusão, silêncio
e medo

não é nenhum processo reflexivo que me conduz a você, mas o dia-a-dia que te faz emergir em mim, e essa constância me põe aqui sentada pra explicar a saudade, que não carece explicação

Nenhum comentário: