segunda-feira, 11 de abril de 2011

Cartas

                                                                                                                                                 depois de 2

Oi.
Mesmo que o agora não alcance você como alcançaria antes, essa tela nos seus olhos tem um sentido mais antigo, que foi sendo digerido com zelo e cuidado pelo meu corpo todo. Essas palavras aqui não têm menos força do que teriam se eu tivesse escrito logo quando cheguei aqui, pra falar do que foi e ficou, mas tenho a sensação presente de que elas têm mais maturidade.
Ontem foi um dos meus aniversários. O único em que pude fazer 21 anos, é claro, mas em sincronia com o dia 21, do mês. Oportunidade singular na vida toda. De forma estranha caiu como o dia simbólico da morte de Cristo. Nunca liguei pra aniversários, sempre passaram batidos. Mas ontem... Estava tudo muito esquisito, começando pela minha febre alta sem explicação (39). Saí com o pessoal, virei a noite numa festa com meu irmão, cheguei pelas 3, dormi só duas horas e quando acordei parecia que estava em outra cidade. Sentia muito frio. Olhei pela janela e chovia, tudo cinza. Um vento no rosto e me veio você na cabeça, saindo cedo pro trabalho, eu na janela a ver o cinza, o sono e frio alheios antes de voltar pra cama. Pensei em escrever que você tinha sido o primeiro pensamento espontâneo do dia, mas no quarto do computador minha mãe estava dormindo. Guardei a lembrança e a vontade de te escrever. Enquanto estava fazendo o café me assaltei de memórias boas, dei risada de lembrar você me ridicularizando pela falta de senso de direção, lembrei de você me beijando na cozinha, tentando elencar os meus 0 defeitos, me desafiando com o olhar mais penetrante e forte, sua mão "equilibrada" pra cima no meio da noite, sua mão no meu corpo, segurando a minha mão que ainda treme, a música certa, o vinho certo (que agora eu tomo sozinha aqui), a minha descoberta real do sexo (aqui eu redescobri que isso depende de quem), e mais um monte de coisas que tornariam isso aqui nostálgico demais.
O fato é que eu senti alí que tinha chegado a hora de nos lembrar.
Não posso te escrever mais como a que pareço pros outros, como se estivesse por cima de tudo. Eu me desnudei de uma forma tão sincera, infantil e destemida pra você, que a parte que eu mais valorizo em nós é como conseguimos nos sincronizar com o máximo de naturalidade.
Enquanto tomava o café e rabiscava essas coisas no papel fui ficando com calor e me descobrindo até querer ligar o ventilador. Febre estranha; o começo do dia mais meu do ano, com uma certa febre de você.
Viver aqui não me impede de estar aí quando você me assalta. Adoro os seus assaltos, seu jeito, eu realmente adoro aquilo, apesar daquilo existir agora só em potencial.
Eu tenho esperado o tempo certo pras coisas, percebo quando é hora de fazer algo porque de repente alguma certeza forte me invade. O tempo que passei em São Paulo tomou lugar certo esses dias, e tudo têm mudado por conta disso.

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